
Grooming, ou aliciamento, é uma das ameaças mais sérias da vida digital, e uma das mais silenciosas. Não começa com uma ameaça, mas com atenção, elogios e “amizade”. Neste artigo explicamos o que é grooming no contexto social e no contexto criminal, como o aliciamento acontece, os sinais de alerta, o que diz a lei brasileira e o que famílias, escolas e empresas podem fazer para proteger crianças, adolescentes e colaboradores.
O que é grooming (aliciamento)
Grooming é uma palavra em inglês que, no sentido original, significa “preparar” ou “cuidar da aparência”. No sentido usado neste artigo, é o processo gradual de manipulação em que alguém conquista a confiança de uma pessoa, cria dependência emocional e quebra as defesas dela para, no fim, explorá-la.
O ponto central é que o aliciamento parece uma relação boa. O aliciador se apresenta como alguém que entende, apoia e dá atenção. Por isso a vítima, principalmente uma criança ou um adolescente, muitas vezes não percebe que está sendo manipulada.
Grooming no contexto social
No contexto social, o termo descreve qualquer manipulação de longo prazo baseada em confiança. A mesma lógica aparece em situações diferentes:
- Relacionamentos abusivos: afeto intenso no começo, depois isolamento de amigos e família, controle e chantagem emocional.
- Golpes: o golpista cria um vínculo por semanas, como no “golpe do amor”, antes de pedir dinheiro ou dados.
- Recrutamento por grupos extremistas ou criminosos: jovens em busca de pertencimento são acolhidos aos poucos e levados a comportamentos de risco.
- Engenharia social contra empresas: o criminoso ganha a confiança de um colaborador por e-mail, WhatsApp ou LinkedIn e, quando a relação está pronta, pede um pagamento “urgente e sigiloso”, uma senha ou um acesso.
Em todos esses casos, o padrão é o mesmo: confiança, isolamento, segredo e, por fim, exploração.
Grooming no contexto criminal: o aliciamento de crianças e adolescentes
No contexto criminal, grooming é o aliciamento de crianças e adolescentes para fins sexuais. Hoje ele acontece principalmente on-line, onde o criminoso pode criar perfis falsos, fingir ter a mesma idade da vítima e conversar com ela a qualquer hora, sem que os adultos por perto percebam.
Os ambientes mais usados são os que as crianças e os adolescentes mais frequentam:
- Jogos on-line com chat de voz ou texto e trocas de itens e créditos;
- Redes sociais e plataformas de vídeos e lives;
- Aplicativos de mensagem, para onde o aliciador tenta levar a conversa, longe da moderação das plataformas;
- Ferramentas de inteligência artificial, como filtros e deepfakes, usadas para criar perfis falsos mais convincentes.
Como o aliciamento costuma acontecer
Conhecer as etapas ajuda pais, professores e os próprios jovens a reconhecer o problema cedo:

- 1. Aproximação: o aliciador escolhe a vítima, muitas vezes alguém que parece mais sozinho ou carente de atenção, e puxa conversa em um jogo ou rede social.
- 2. Confiança: elogios, presentes, créditos em jogos e a sensação de “só eu te entendo”.
- 3. Isolamento e segredo: pede que a conversa fique em segredo, leva o contato para um aplicativo privado e tenta afastar a vítima dos pais.
- 4. Quebra de limites: aos poucos, a conversa fica mais íntima e o aliciador pede fotos ou vídeos.
- 5. Controle e chantagem: com o material em mãos, ameaça divulgar tudo se a vítima contar a alguém ou não enviar mais. Essa chantagem é chamada de sextorsão.
É importante deixar claro para a criança ou o adolescente: a culpa nunca é da vítima. Quem sofre chantagem deve pedir ajuda, e não ceder à pressão.
Sinais de alerta para pais e escolas
Nenhum sinal sozinho prova que algo está acontecendo, mas vários juntos pedem atenção e uma conversa tranquila:
- Segredo excessivo com o celular ou o computador, com a tela escondida quando alguém se aproxima;
- Um novo “amigo” on-line, geralmente mais velho, que ninguém da família conhece;
- Presentes, créditos em jogos ou dinheiro sem explicação;
- Uso do aparelho de madrugada e conversas apagadas com frequência;
- Mudanças bruscas de humor, ansiedade ou medo ao receber uma notificação;
- Afastamento da família e dos amigos de sempre;
- Linguagem ou conhecimento sobre sexualidade incompatível com a idade.
O que diz a lei brasileira
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), no artigo 241-D, define como crime aliciar, assediar, instigar ou constranger uma criança, por qualquer meio de comunicação, com fins sexuais. O mesmo vale para quem facilita ou induz o acesso da criança a material pornográfico com esse objetivo.
Em agosto de 2026, a Lei 15.487/2026 endureceu as regras: a pena do aliciamento de menores de 14 anos passou a ser de 3 a 5 anos de reclusão e multa, com aumento de um terço a dois terços quando o criminoso usa inteligência artificial, deepfake ou filtros para se passar por criança ou adolescente (Agência Senado). A lei também passou a tratar como material de abuso o conteúdo gerado ou manipulado por inteligência artificial.
Já o ECA Digital (Lei 15.211/2025), em vigor desde 17 de março de 2026, cria obrigações para redes sociais, jogos e aplicativos usados por crianças e adolescentes, como mecanismos de supervisão pelos pais e mais proteção por padrão, com fiscalização da Autoridade Nacional de Proteção de Dados (OAB-SP).
Como proteger crianças e adolescentes
Diálogo em primeiro lugar
A proteção mais eficaz é uma relação de confiança. Converse sobre o que eles fazem on-line, sem julgamento, e combine uma regra simples: adulto que pede segredo é sinal de alerta. Deixe claro que eles podem contar qualquer coisa, sem medo de castigo.
Configurações e controle parental
- Ative o controle parental do sistema, como o Google Family Link, o Microsoft Family Safety ou o Tempo de Uso do iPhone;
- Deixe os perfis em modo privado e limite quem pode enviar mensagens;
- Nos jogos, restrinja o chat a amigos conhecidos e bloqueie compras sem aprovação;
- Prefira que computadores e consoles fiquem em áreas comuns da casa.
Proteção na rede da casa e da escola
Filtros de conteúdo no roteador ou no firewall, DNS com bloqueio de sites impróprios e antivírus atualizado reduzem a exposição. Em escolas, os tablets e notebooks dos alunos podem ser gerenciados com MDM, que controla aplicativos, sites e configurações de forma centralizada.
O que fazer se suspeitar de aliciamento
- Mantenha a calma e acolha: agradeça por ter contado e reforce que a culpa não é dela ou dele.
- Não confronte o aliciador nem negocie com ele.
- Guarde as provas: faça capturas de tela das conversas, do perfil, dos links, das datas e dos horários antes de qualquer coisa. Não repasse imagens íntimas para ninguém, nem como prova: entregue-as só às autoridades.
- Bloqueie e denuncie o perfil na própria plataforma.
- Denuncie às autoridades: na SaferNet Brasil, de forma anônima; no Disque 100, gratuito e 24 horas; e na delegacia, de preferência especializada em crimes cibernéticos ou de proteção à criança. Em caso de risco imediato, ligue 190.
- Busque apoio: o Canal de Ajuda da SaferNet orienta vítimas e famílias de forma sigilosa, e o Conselho Tutelar da sua cidade também pode ser acionado.
O papel das empresas e das escolas
Empresas e escolas também fazem parte da proteção. Escolas, clubes e empresas que oferecem Wi-Fi para alunos, visitantes ou famílias precisam de filtro de conteúdo e de uma política de uso. Quem desenvolve aplicativos, jogos ou plataformas usados por menores precisa se adequar ao ECA Digital, junto com a LGPD.
Dentro das empresas, vale lembrar que o “grooming corporativo” existe: criminosos passam semanas ganhando a confiança de um colaborador antes de aplicar o golpe. Foi assim no ataque hacker à Binance, que, segundo a empresa, começou com falsas entrevistas de emprego. Treinar a equipe para desconfiar de pedidos urgentes e sigilosos, conferir por outro canal e nunca compartilhar senhas é a defesa mais simples, e uma das mais eficazes. Veja também as ameaças de cibersegurança de 2026.
Como a ALLIATI pode ajudar
A ALLIATI ajuda escolas e empresas a criar um ambiente digital mais seguro: firewall com filtro de conteúdo, gestão de dispositivos (MDM), antivírus corporativo, monitoramento 24/7 e assessoria de TI para definir políticas de uso e treinar as pessoas.
Perguntas frequentes
O que é grooming?
Grooming, ou aliciamento, é o processo em que alguém conquista aos poucos a confiança de uma pessoa para depois manipulá-la e explorá-la. O termo é mais usado para o aliciamento de crianças e adolescentes para fins sexuais, principalmente pela internet, mas a mesma lógica aparece em golpes, relacionamentos abusivos e ataques de engenharia social contra empresas.
Grooming é crime no Brasil?
Sim. O Estatuto da Criança e do Adolescente (art. 241-D) define como crime aliciar, assediar, instigar ou constranger uma criança, por qualquer meio de comunicação, com fins sexuais. Em 2026, a Lei 15.487 aumentou as penas e criou um agravante para quem usa inteligência artificial, deepfake ou filtros para se passar por criança ou adolescente.
Como saber se meu filho está sendo aliciado na internet?
Fique atento a sinais como segredo excessivo com o celular, um novo “amigo” mais velho que ninguém conhece, presentes ou créditos em jogos sem explicação, uso do aparelho de madrugada, apagar conversas e mudanças bruscas de humor. Nenhum sinal sozinho prova algo, mas vários juntos pedem uma conversa tranquila e atenção.
Onde denunciar aliciamento de crianças na internet?
Na SaferNet Brasil (new.safernet.org.br/denuncie), de forma anônima; no Disque 100, gratuito e 24 horas; e na delegacia, de preferência especializada em crimes cibernéticos ou de proteção à criança. Em caso de risco imediato, ligue 190. Guarde as provas antes de bloquear o perfil.
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Fontes: Estatuto da Criança e do Adolescente, Lei 8.069/1990; Agência Senado, “Lei aumenta penas para crimes sexuais contra crianças na internet”, 07/08/2026; OAB-SP, “ECA Digital entra em vigor”, 27/03/2026; SaferNet Brasil; Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, Disque 100.